domingo, 31 de julho de 2011

O Corpo


 Eu sou seu corpo.
Não sou você!
Não adianta fantasiar-me com roupas e jóias coloridas, tentando fazer com que eu passe por aquilo que você desejaria ser mas não é.
Se sou um corpo bonito, não creia que mereço mais atenção por parte dos outros.
Existem frutas bonitas, mas que são azedas.
Eu sou o corpo, não sou você!
Deus emprestou-me a você para que caminhe levando-me
como representante dos seus contatos mais diretos com o mundo.
Você sabe que, feio ou bonito, doente ou sadio, não sou você.
Presto, sim, um serviço que você precisa.
Sou um empréstimo, e o empréstimo termina quando vence o tempodeterminado.
Obrigado, se me tratas com o devido respeito frente àquilo que posso suportar.
Um dia você deverá deixar-me.
Muitos acharão que eu sou realmente você, e será triste,
Será difícil, mas você sabe que não sou você!
Você segue com a sua inteligência, eu sofrerei modificações em minha libertação.
Eu sou o corpo; você sabe que não sou você!

(Jair Presente/Celso de Almeida )








Sentimentos Humanos



             
                    

Os Sentimentos Humanos certo dia se reuniram para brincar. Depois que o Tédio bocejou três vezes porque a Indecisão não chegava a conclusão nenhuma e a Desconfiança estava tomando conta, a Loucura propôs que brincassem de esconde-esconde. A Curiosidade quis saber todos os detalhes do jogo, e a Intriga começou a cochichar com os outros que certamente alguém ali iria trapacear.
O Entusiasmo saltou de contentamento e convenceu a Dúvida e Apatia, ainda sentadas num canto, a entrarem no jogo. A Verdade achou que isso de esconder não estava com nada, a Arrogância fez cara de desdém pois a idéia não tinha sido dela, e o Medo preferiu não se arriscar: “Ah, gente, vamos deixar tudo como esta”, e como sempre perder a oportunidade de ser feliz.
A primeira a se esconder foi a Preguiça, deixando-se cair no chão atrás de uma pedra, ali mesmo onde estava. O Otimismo escondeu-se no arco-íris, e a Inveja se ocultou junto a Hipocrisia, que sorrindo fingidamente atrás de uma arvore estava odiando tudo aquilo.
A Generosidade quase não conseguia se esconder porque era grande, e ainda queria abrigar meio mundo, a Culpa ficou paralisada pois já estava mais do que escondida em si mesma, a Sensualidade se estendeu ao sol num lugar bonito e secreto para saborear o que a vida lhe oferecia, porque não era nem boba nem frígida; o Egoísmo achou um lugar perfeito onde não cabia ninguém mais.
A Mentira disse para Inocência que ia se esconder no fundo do oceano, onde a inocente acabou afogada, a Paixão meteu-se na cratera de um vulcão ativo, e o Esquecimento já nem sabia o que estava fazendo ali.
Depois de contar 99 a Loucura começou a procurar.
Achou um, achou outro, mas ao remexer num arbusto espesso ouviu um gemido: era o Amor, com os olhos furados pelos espinhos.
A loucura o tomou pelo braço e seguiu com ele, espalhando beleza pelo mundo. Desde então o Amor é cego e a Loucura o acompanha.
Juntos fazem a vida valer a pena... (Lya Luft)
Lya Luft

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sábado, 30 de julho de 2011

Simplesmente William Shakespeare


"Podemos escolher recuar em direção à segurança ou avançar em direção ao crescimento.
A opção pelo crescimento tem que ser feita repetidas vezes. E o medo tem que ser superado a cada momento."
(Abraham Maslow)

INDIFERENÇA


Indiferença

Hoje, voltas-me o rosto, se ao teu lado
passo. E eu, baixo os meus olhos se te avisto.
E assim fazemos, como se com isto,
pudéssemos varrer nosso passado.

Passo esquecido de te olhar, coitado!
Vais, coitada, esquecida de que existo.
Como se nunca me tivesses visto,
como se eu sempre não te houvesse amado

Mas, se às vezes, sem querer nos entrevemos,
se quando passo, teu olhar me alcança
se meus olhos te alcançam quando vais.

Ah! Só Deus sabe! Só nós dois sabemos.
Volta-nos sempre a pálida lembrança.
Daqueles tempos que não voltam mais!

Guilherme de Andrade e Almeida

Amo-te tanto meu amor

Amo-te tanto meu amor ... não cante
o humano coração com mais verdade...
amo-te como amigo e como amante
numa sempre diversa realidade

amo-te afim, de um calmo amor prestante,
e te amo além, presente na saudade.
amo-te enfim, com grande liberdade
dentro da eternidade e a cada instante

amo-te como um bicho, simplesmente,
de um amor sem misterio e sem virtude
com um desejo maciço e permanente

e de te amar assim muito e amiúde
é que um dia em teu corpo de repente
hei de morrer de amar mais do que pude. 

(Vinicius de Morais)

Rosto Na Luz Direta






Rosto nu na luz direta.

Rosto suspenso, despido permeável,
Osmose lenta.
Boca entreaberta como se bebesse,
Cabeça atenta.

Rosto desfeito,
Rosto sem recusa onde nada se defende,
Rosto que se dá na angústia do pedido,
Rosto que as vozes atravessam.

Rosto derivando lentamente,
Presentimento que os laranjais segredam,
Rosto abandonado e transparente
Que as negras noites de amor em si recebem.

Longos raios de frio correm sobre o mar
Em silêncio ergueram-se as paisagens
e eu toco a solidão com uma pedra.

Rosto perdido
Que amargos ventos de secura em si sepultam
E que as ondas do mar puríssimas lamentam.

Sophia de Mello Breyner Andresen